INTRODUÇÃO
Embora se passa no período sombrio e caótico dos Juízes, uma época marcada pela infidelidade espiritual em Israel, o Livro de Rute é uma das narrativas mais belas da Bíblia marcada por temas como fidelidade, providência divina e redenção.
A fome em Belém (citada no livro de Rute, no período dos Juízes) foi causada por uma severa seca e escassez de chuvas que prejudicou a produção agrícola na região de Judá.
Do ponto de vista bíblico e teológico, esse período também é associado à crise espiritual e à desobediência do povo de Israel durante a época dos Juízes (marcada pelo lema "cada um fazia o que achava mais reto aos seus próprios olhos"), sendo interpretado como uma consequência do afastamento de Deus.
Assim a história começa em meio à tragédia.
1. De Belém para Moabe
A fome em Belém leva Elimeleque, sua esposa Noemi e seus dois filhos para a terra de Moabe. O relato bíblico, encontrado no primeiro capítulo do Livro de Rute, descreve os fatos de forma muito direta e resumida:
- A família saiu de Belém de Judá devido a uma grande fome e foi morar na terra de Moabe.
- Enquanto estavam em Moabe, Elimeleque faleceu.
- Os filhos se casaram com mulheres moabitas (Orfa e Rute) e, após quase dez anos vivendo ali, os dois irmãos também morreram, deixando Noemi e suas noras desamparadas (Rute 1:4-5).
"Eles se casaram com mulheres moabitas: uma chamada Orfa, e a outra, Rute. Depois de terem vivido lá por quase dez anos, morreram também Malom e Quiliom, e Noemi ficou sem os dois filhos e sem o marido." - (Rute 1:4-5)
Muitos teólogos e estudiosos da Bíblia chamam a atenção para o significado dos nomes dos filhos em hebraico, que parecem antecipar o destino trágico de ambos:
- Malom: Significa "doentio" ou "enfermidade".
- Quiliom: Significa "definhamento", "frágil" ou "destruição".
Embora algumas pessoas tentem associar os nomes a possíveis problemas de saúde crônicos ou desnutrição gerada pelo período de escassez, qualquer afirmação sobre a causa médica ou física da morte deles é apenas uma especulação, pois o texto sagrado silencia sobre os detalhes.
Com a morte de Elimeleque e dos dois filhos (Malom e Quilom) ) em Moabe. Noemi, Rute e Orfa ficaram sozinhas e em situação de grande vulnerabilidade Diante dessa situação: Noemi decidiu retornar para Belém de Judá ao saber que havia fartura de alimentos novamente em sua terra natal.
- A decisão de voltar: Ao saber que a fome havia acabado em Judá, Noemi decide retornar para sua terra natal, Belém.
- O conselho de Noemi: Noemi pediu que suas noras, Orfa e Rute, voltassem para a casa de suas próprias mães em Moabe, para que pudessem reconstruir suas vidas e encontrar novos casamentos.
- A decisão de Orfa: Orfa despediu-se de Noemi com um beijo e retornou ao seu povo e aos seus deuses.
- A decisão de Rute: Rute recusou-se a deixar a sogra, proferindo uma famosa declaração de lealdade ("O teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o seu Deus") e acompanhou Noemi de volta a Belém.
"Rute, porém, respondeu: 'Não insistas comigo para que te abandone e que não mais te acompanhe. Aonde fores, irei; onde repousares, ali repousarei! O teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus! Onde morreres, morrerei e ali serei sepultada. Que o SENHOR me castigue com todo o rigor se outra coisa que não a morte me separar de ti!'" - Rute 1:16-17
2. Direito de Resgate
O livro de Rute, no capítulo 4, retrata um dos momentos jurídicos e culturais mais fascinantes da Bíblia Sagrada.
A decisão de Noemi de dispor das terras que pertenciam ao seu falecido marido, Elimeleque, envolve duas leis fundamentais do antigo Israel: o direito de resgate da terra (venda/recompra) e a lei do levirato.
a. A Lealdade e a Decisão de Rute (Rute 1)
- Rute era estrangeira (moabita), um povo historicamente distante de Israel.
- Em vez de retornar para sua família e deuses em Moabe como fez Orfa, ela escolhe o Deus de Noemi e o povo de Israel, dizendo: "O teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus".
- Isso demonstra que a graça e o pertencimento ao plano de Deus ultrapassam barreiras étnicas.
b) A Providência de Deus nos Campos (Rute 2)
- De volta a Belém em plena colheita de cevada, Rute vai respigar nos campos para sustentar a si mesma e a Noemi.
- Ela "por acaso" entra no campo de Boaz, um parente rico e influente da família de Elimeleque.
- O que parece ser sorte humana é, na verdade, a mão invisível de Deus orquestrando a provisão e o encontro dos futuros cônjuges.
c) O Pedido de Resgate e a Lei do Goel (Rute 3)
- Sob a orientação de Noemi, Rute vai à eira de Boaz e o lembra de seu papel como Goel (o parente resgatador), que tinha o dever de proteger a família e resgatar as propriedades.
- Boaz aceita a responsabilidade com honra, mas age com retidão legal: antes de se casar com Rute, ele precisa consultar um parente que tinha prioridade de parentesco.
- O livro de Rute, no capítulo 4, descreve um processo jurídico e cultural crucial do antigo Israel: o resgate de terras (Goel) combinado com o dever do levirato.
- O caso em Rute 4 apresenta uma combinação única. O resgatador não estava apenas comprando um pedaço de terra; ele também precisava assumir a responsabilidade pela linhagem da família.
- Noemi, ao retornar viúva e sem filhos de Moabe, precisava vender ou transferir os direitos das terras de seu falecido marido, Elimeleque, para garantir sua sobrevivência e manter a propriedade dentro do clã familiar.
3. O Direito de Resgate de Terras (Goel)
Pela Lei de Moisés (Levítico 25:23-28), a terra em Israel pertencia a Deus e era distribuída entre as tribos e famílias. Ela não podia ser vendida permanentemente.
Se uma família ficasse pobre e precisasse vender sua propriedade, o parente homem mais próximo (chamado de Goel, o "resgatador") tinha a obrigação ou o privilégio de comprar a terra de volta para que ela permanecesse na linhagem da família original.
- O Objetivo: Evitar que uma família perdesse sua herança tribal e sua subsistência devido à pobreza.
- O Mecanismo: Se um israelita ficasse pobre e precisasse vender sua posse, o parente homem mais próximo (chamado de Goel, o "resgatador") tinha o dever e o direito de comprar a terra de volta (ou comprá-la diretamente) para mantê-la no patrimônio da família.
- A Situação de Noemi: Ao retornar de Moabe viúva e sem recursos, Noemi precisava vender as terras de Elimeleque para sobreviver, e necessitava de um resgatador para realizar essa transação dentro da legalidade tribal.
Como Elimeleque e seus dois filhos haviam morrido, Noemi voltou de Moabe sem recursos e precisava de sustento. Ao colocar as terras à disposição, ela estava acionando esse direito de resgate.
As terras de Elimeleque ficavam em Belém de Judá - (Rute 4:3), Noemi precisava dispor da terra para garantir sua subsistência e cumprir o levirato (direito e dever de resgate familiar, conforme a Lei de Moisés).
Segundo a Lei de Moisés (Levítico 25:23-28), a terra prometida a cada tribo e família não podia ser vendida permanentemente. Se um israelita ficasse pobre e precisasse vender sua propriedade, o parente mais próximo tinha o direito e o dever de comprar (resgatar) essa terra para que ela continuasse pertencendo à mesma linhagem familiar.
4. A Associação com o Levirato
Baseada em Deuteronômio 25:5-10, esta lei tratava da continuidade da linhagem familiar.
- O Objetivo: Preservar o nome de um homem que morresse sem deixar herdeiros homens, garantindo também o amparo da viúva.
- O Mecanismo: O irmão do falecido (ou o parente mais próximo) deveria se casar com a viúva. O primeiro filho desse novo casamento seria legalmente considerado herdeiro do falecido, herdando seu nome e sua propriedade.
- O propósito: A lei do levirato (Deuteronômio 25:5-6) estipulava que se um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão (ou o parente mais próximo) deveria se casar com a viúva.
- O nome do falecido: O primeiro filho desse novo casamento levaria o nome do marido falecido, para que o seu nome não se apagasse em Israel e a herança da terra continuasse sendo dele.
No caso de Noemi, a situação era ainda mais complexa porque envolvia o levirato (Deuteronômio 25:5-6). Como Elimeleque e seus dois filhos (Malom e Quiliom) morreram sem deixar herdeiros homens, a linhagem daquela família corria o risco de desaparecer.
- A Situação de Rute: Como os filhos de Noemi também morreram, sua nora moabita, Rute (viúva de Malom), representava a continuidade da linhagem de Elimeleque.
- Quem resgatasse as terras de Noemi também deveria se casar com Rute, a moabita (viúva de Malom).
- O primeiro filho desse novo casamento receberia o nome do falecido, herdando legalmente a terra e garantindo a perpetuidade do nome de Elimeleque em Israel.
5. O Impasse em Rute 4
O grande ponto de virada da história acontece no Capítulo 4, quando Boaz apresenta o caso ao parente mais próximo no tribunal às portas da cidade. Boaz levou o caso ao tribunal público na porta da cidade de Belém, convocando dez anciãos à porta da cidade para oficializar o processo legal.
É aqui que as duas leis se fundem de forma estratégica:
Quando Boaz apresenta o caso ao parente que era ainda mais próximo do que ele (o resgatador anônimo, muitas vezes chamado de Ploni Almoni), o homem aceita de imediato comprar a terra. Para ele, expandir suas propriedades parecia um ótimo negócio.
O cenário muda completamente quando Boaz menciona Rute. De acordo com o relato no livro bíblico de Rute (capítulo 4), a transação não envolvia apenas a compra de um pedaço de terra, mas também a obrigação do Levirato (a lei do resgate).
Boaz impõe a condição no versículo 5: "No dia em que comprares a terra da mão de Noemi, compras-a também da mão de Rute, a moabita, mulher do falecido, para suscitar o nome deste sobre a sua herança".
Quando Boaz explica que, junto com o campo, o resgatador deveria casar-se com Rute, a moabita, para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança, o homem volta atrás imediatamente. Ao ouvir isso, o parente mais próximo recusa o negócio.
Ele confessa: "Não posso resgatar, para que não prejudique a minha própria herança" (v. 6).
Os motivos eram financeiros e hereditários:. O resgatador anônimo desiste do negócio alegando que isso prejudicaria a sua própria herança. Os principais motivos para isso eram:
- Dinheiro do Resgatador: Ele teria que gastar dinheiro para comprar a terra.
- Divisão de bens: O primeiro filho que ele tivesse com Rute não seria considerado legalmente dele, mas sim do falecido (Malom, filho de Elimeleque). Esse filho herdaria a terra que acabou de ser comprada, gastando o dinheiro do resgatador sem somar ao seu patrimônio familiar real.
- Herança Resgatada: O primeiro filho que ele tivesse com Rute não herdaria o seu próprio nome, mas o de Malom (falecido filho de Elimeleque). Essa criança teria direito àquela terra resgatada, o que, na visão do parente, "prejudicaria a sua própria herança" familiar.
- Risco patrimonial: Se ele tivesse apenas esse filho com Rute, seus próprios bens poderiam acabar sendo transferidos para a linhagem de Elimeleque, diluindo ou ameaçando a herança de seus filhos já existentes.
Inicialmente aceitou comprar as terras de Noemi. Porém, ao saber que precisaria casar-se com Rute para dar sucessão ao falecido, ele desistiu, pois isso "prejudicaria a sua própria herança" (os recursos gastos seriam para um filho que não levaria o seu nome).
Ao perceber que o negócio traria obrigações familiares e desvantagem financeira a longo prazo, ele cede o direito de resgate a Boaz, selando o acordo com o costume da época: tirar a sandália e entregá-la ao outro.
- Análise Bíblica e Histórica: Para ratificar o acordo de renúncia na cultura israelita, o homem tirava a sua sandália e a entregava ao outro. Este ato público simbolizava que ele estava abrindo mão do direito de pisar e possuir aquela terra. Boaz recebe a sandália e declara publicamente que comprou os bens de Elimeleque e tomou Rute por esposa.
- Aplicação Espiritual: O que era uma vergonha para o parente que recusou a obrigação tornou-se o memorial da generosidade de Boaz. Boaz não foge da responsabilidade; ele assume voluntariamente a dívida e a desonra alheia para dar dignidade às duas viúvas.
Na antiga tradição israelita, o ato de tirar a sandália e entregá-la a outra pessoa funcionava como um contrato público e legal.
- Validação: Confirmava a transferência de propriedade ou de direitos de resgate perante as testemunhas no portão da cidade.
- Simbolismo: Representava que o homem estava abrindo mão do direito de "pisar" e tomar posse daquela terra, transferindo esse poder a outrem.
- Análise Bíblica e Histórica: As testemunhas abençoam o casamento comparando Rute a Raquel e Lia, as mães da nação de Israel. Boaz assume o papel de Goel (Resgatador). Pela lei do levirato e do resgate, ele paga o preço necessário e tira Rute e Noemi da condição de miséria e marginalidade social.
Com a desistência do parente, Boaz assume legalmente o papel de resgatador diante dos anciãos de Belém:
- Compra: Boaz adquire todas as propriedades que pertenciam a Elimeleque, Quiliom e Malom.
- Casamento: Ele toma Rute como esposa para dar continuidade à linhagem da família.
- Linhagem Real: Desse casamento nasce Obede, que viria a ser o avô do Rei Davi, inserindo Rute diretamente na genealogia de Jesus Cristo.
6. A Redenção Pública e o Nascimento de Obede
O parente mais próximo abre mão do direito de resgate ao saber que precisaria se casar com Rute moabita, temendo prejudicar sua própria herança. Boaz assume publicamente diante dos anciãos o papel de resgatador: compra as terras de Elimeleque e casa-se com Rute.
A estratégia de Noemi e Boaz uniu o resgate social (sustento e terra) ao resgate familiar (descendência). Ao aceitar ambas as obrigações, Boaz não apenas redimiu a propriedade de Elimeleque, mas perpetuou o nome da família através de seu casamento com Rute.
Boaz, como o segundo na linha de resgate, assumiu formalmente o compromisso. Ele comprou as terras de Elimeleque e casou-se com Rute.
Esse ato de amor e responsabilidade legal não apenas salvou Noemi e Rute da pobreza, mas também inseriu Rute na genealogia do Rei Davi e, consequentemente, de Jesus Cristo.
Com a recusa do primeiro parente, Boaz assume o papel de resgatador. Ele compra as terras de Elimeleque e casa-se com Rute. Dessa união nasce Obede, que se torna o avô do Rei Davi, inserindo Rute e Boaz diretamente na genealogia de Jesus Cristo.
- Análise Bíblica e Histórica: O Senhor concede que Rute conceba e ela dá à luz um filho chamado Obede (que significa "servo" ou "adorador"). As mulheres da cidade celebram não apenas o bebê, mas a restauração da vida de Noemi, dizendo que Rute era para ela melhor do que sete filhos (v. 15). Obede torna-se o consolador da velhice de Noemi.
- Aplicação Espiritual: Deus transforma o luto e a amargura profunda de Noemi (que antes queria ser chamada de Mara, amarga) em transbordante alegria. O nascimento de Obede prova que a fidelidade e a compaixão quebram qualquer histórico de maldição ou escassez.
- Aplicação Espiritual: Teologicamente, Boaz é um tipo (símbolo) de Jesus Cristo. Assim como o primeiro parente (a Lei) não pôde nos salvar por causa da nossa falência espiritual, Jesus veio como o nosso parente Próximo. Ele assumiu a nossa dívida, pagou o preço com Seu próprio sangue e nos tomou como Sua noiva (a Igreja).
O Livro de Rute mostra como Deus consegue transformar amargura em festa e o vazio em abundância. Através da atitude íntegra de Boaz — que prefigura a figura de Jesus Cristo como o nosso verdadeiro Redentor —, uma mulher estrangeira e marginalizada é alcançada pela graça.
A história não termina apenas com a restauração de um lar em Belém, mas abre caminho para a linhagem messiânica que culmina no nascimento de Jesus, o Salvador de toda a humanidade.
Conclusão
O desfecho dessa jornada familiar culmina na figura de Boaz e na restauração total da vida de Noemi e de Rute.
O livro termina de forma surpreendente com uma breve linhagem: de Obede nasce Jessé, de Jessé nasce o Rei Davi (v. 17, 22). Historicamente, isso insere Rute, uma gentia de Moabe, e Boaz no cerne da promessa messiânica.
Ao lermos o Novo Testamento em Mateus 1, os nomes de Rute e Boaz aparecem explicitamente na genealogia de Jesus Cristo. O livro que começou com fome, morte e exílio termina apontando para a eternidade.
Isso nos ensina que a graça de Deus não discrimina origens, e que pequenas decisões de fidelidade diária são usadas por Deus para construir a história da Redenção da humanidade.
