quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O conceito de "Viver como se não..."


 - "E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa", (1 Coríntios 7:31), ensina que as realidades terrenas são passageiras.

O Apóstolo Paulo orienta os cristãos a viverem no mundo sem se prenderem excessivamente a ele, mantendo o foco na eternidade com Deus.

🌅 Introdução

Em 1 Coríntios 7:31, o apóstolo Paulo aconselha que os cristãos usem as coisas do mundo "como se não as usassem em absoluto", pois a forma e a aparência desta vida são passageiras.
O texto chama a atenção para a brevidade do tempo e a necessidade de não colocar a nossa segurança ou identidade em estruturas que vão acabar.
O apóstolo Paulo escreve a primeira carta aos Coríntios para responder a dúvidas práticas de uma igreja imersa em uma cultura altamente consumista, plural e imoral.
No capítulo 7, ao tratar sobre casamento, solteirice e as pressões do cotidiano, ele faz uma pausa nos versículos 29 a 31 para calibrar a perspectiva espiritual dos cristãos.
Em 1 Coríntios 7:31, Paulo nos lembra de uma verdade crucial: o mundo presente não é permanente. Ele nos convida a desenvolver uma "indiferença santa" ou um desapego saudável das estruturas terrenas.
O objetivo não é o isolamento ou o ascetismo extremo, mas sim aprender a interagir com os bens, relacionamentos e responsabilidades temporais sem permitir que eles ocupem o lugar que pertence unicamente a Deus.
  • O Contexto da Carta: Escrita pelo apóstolo Paulo à igreja em Corinto por volta de 55–56 d.C., uma cidade cosmopolita, rica e marcada pela forte imoralidade e pressões culturais.
  • O Tema do Capítulo 7: Paulo trata de relacionamentos, casamento, solteirice e a urgência do tempo.
  • O Versículo Chave (1 Co 7:31): Resume uma postura de "desapego saudável" das coisas temporais diante da brevidade da vida e da volta de Cristo.
1. 1. O Uso Legítimo dos Recursos Terrenos
“...e os que usam deste mundo...”
Paulo não adota uma postura gnóstica de que a matéria ou as coisas do mundo são intrinsecamente más. Ele reconhece que precisamos trabalhar, casar, consumir, estudar e utilizar as ferramentas que a sociedade oferece.
O cristão está inserido na realidade cultural e econômica de sua época.
Usar o mundo significa cumprir nossas obrigações diárias, usufruir das bençãos da criação com gratidão e gerenciar os recursos que Deus colocou à nossa disposição.
  • A transitoriedade do mundo ("a aparência deste mundo passa")
  • O mundo atual e as suas estruturas sociais, econômicas e materiais não são definitivos.
  • A expressão grega indica que a "cena deste mundo" está mudando ou se dissipando como um espetáculo teatral que chega ao fim.
  • Lembrar que nada aqui é permanente ajuda o cristão a não depositar esperança absoluta em bens, status ou circunstâncias.
2. O Perigo do Abuso e da Idolatria
“...como se dele não abusassem...”
A palavra grega traduzida para "abusar" (katachraomai) carrega o sentido de "usar excessivamente" ou "ficar totalmente absorvido por algo".
O pecado muitas vezes não está na coisa em si, mas no peso que damos a ela.
Há um abuso quando o trabalho se transforma em workaholismo, quando os bens materiais geram ganância, ou quando as redes sociais e o entretenimento passam a governar o nosso tempo.
Não devemos permitir que aquilo que foi criado para nos servir acabe se tornando o nosso senhor.
  • O Uso Legítimo vs. O Abuso ("os que usam deste mundo, como se dele não abusassem")
  • Paulo não prega o ascetismo extremo (fugir de tudo ou achar que comer, trabalhar, casar ou viver seja pecado).
  • "Usar" é lícito; "abusar" (katachraomai) significa escravizar-se, exceder-se ou tratar o recurso temporal como se fosse um fim em si mesmo.
  • As coisas materiais devem ser ferramentas para a glória de Deus, e não ídolos do coração.
O conceito de "Viver como se não..."
O conceito significa que as realidades terrenas não devem ser o centro absoluto ou a maior segurança da vida do cristão. Nos versículos anteriores (29-30), Paulo exemplifica essa postura de desapego saudável com uma série de paradoxos.
Na passagem, Paulo exorta a comunidade: "[...] os que têm esposa vivam como se não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que estão felizes, como se não estivessem; os que compram algo, como se nada possuíssem; os que usam as coisas do mundo, como se não as usassem. Porque a forma presente deste mundo passará.
  • Ter esposas como se não as tivessem.
  • Chorar como se não chorassem.
  • Alegrar-se como se não se alegrassem.
  • Comprar como se nada possuíssem.
O que significa na prática?
  • O tempo é breve: Paulo escreve sob uma forte consciência da urgência escatológica e da brevidade da vida e da ordem atual das coisas.
  • Relativização das coisas temporais: Não se trata de abandonar o casamento, o trabalho ou o choro, mas de impedir que essas coisas dominem a alma a ponto de afastar o crente de Deus.
  • Foco no Reino: O cristão pode desfrutar das bênçãos e cumprir seus papéis sociais, mas com o coração livre e voltado para a eternidade
  • Prioridade Eterna: Usar as coisas do mundo (bens, relacionamentos, status) sem se deixar dominar por elas. O erro não está em possuir algo, mas em ser possuído por algo.
  • Liberdade de Coração: Significa que sua alegria profunda, sua paz e sua identidade não dependem das circunstâncias voláteis da sociedade ou dos bens materiais.
  • Foco na Missão: Como o cenário atual é provisório e o Reino de Deus é definitivo, o cristão investe seu coração naquilo que permanece para sempre.
É um convite a caminhar pela história com os pés firmes na terra, cumprindo nossos deveres, mas com os olhos e o coração ancorados na eternidade.
O Significado Teológico e Prático
  • Engajamento sem Obsessão: O "viver como se não" não significa isolamento social, alienação ou o abandono das obrigações cotidianas. Os casados continuam casados e os que compram continuam possuindo seus bens. A diferença está no coração: essas coisas não devem ocupar o lugar que pertence a Deus.
  • Liberdade de Preocupações: Paulo enfatiza que o objetivo dessa mentalidade é manter a mente livre de ansiedades e divisões, permitindo que o crente sirva ao Senhor com foco total. 
  • Perspectiva Escatológica: O conceito baseia-se no "tempo messiânico". Como o mundo presente é temporário e está em processo de transição, colocar a segurança e a identidade máxima naquilo que é passageiro perde o sentido. 
Principais pontos do ensinamento
  • Casamento: Os casados devem viver como se não tivessem cônjuges, não para abandonar a família, mas para não deixar que o afeto terreno suplante a devoção total a Deus. 
  • Choro e Alegria: Quem chora ou se alegra não deve ser dominado por essas emoções a ponto de esquecer a soberania e a esperança em Deus.
  • Posses e Compras: Quem compra ou usa as coisas do mundo não deve se tornar escravo delas ou achar que elas lhes pertencem para sempre.
  • Brevidade do Tempo: O fio condutor de Paulo é que "o tempo é abreviado" e a forma atual deste mundo passa rápido, exigindo liberdade de ansiedades terrenas.
3. A Transitoriedade da Realidade Atual
“...porque a aparência deste mundo passa.”
O termo "aparência" (schēma) refere-se à forma presente, ao cenário ou à moda atual deste sistema. Paulo compara o mundo a um palco de teatro onde os cenários mudam rapidamente.
O status social, a economia, a juventude, as estruturas políticas e até mesmo os moldes dos relacionamentos humanos são passageiros. Investir toda a nossa energia, identidade e esperança em algo que está em constante processo de dissolução é uma tolice espiritual.
  • A liberdade do desapego emocional
  • O texto desafia a forma como lidamos com as alegrias e as dores (versículos anteriores citam chorar como quem não chora, alegrar-se como quem não se alegra).
  • As posses, o trabalho e os status sociais não devem definir a identidade ou a segurança espiritual do cristão.
  • Há uma leveza em saber que as crises e as conquistas passageiras estão sob o crivo da eternidade.
4. Vivendo com Perspectiva Eterna
O cerne do argumento de Paulo é a tensão escatológica: o tempo é curto e a vinda de Cristo reconfigurou o valor de todas as coisas. Compreender que a forma deste mundo passa deve mudar o nosso foco.
Se o mundo é transitório, nossa maior energia deve ser canalizada para o que permanece para sempre: o Reino de Deus, o amor ao próximo e a nossa comunhão com o Senhor. Passamos a viver no mundo, mas com os olhos fixos na eternidade.
  • A centralidade do Reino de Deus
  • A brevidade do tempo reconfigura as prioridades diárias.
  • Viver à luz de 1 Coríntios 7:31 significa alinhar o trabalho, o lazer, os afetos e os planos pessoais à vontade do Senhor.
  • O objetivo supremo não é acumular ou fixar raiz definitiva num mundo caído, mas servir com fidelidade enquanto caminhamos rumo ao porvir.
🏁 Conclusão
Estudar 1 Coríntios 7:31 nos confronta com o nosso nível de apego às coisas terrenas. Paulo nos oferece uma chave de sabedoria prática para o equilíbrio: viver no mundo sem ser dominado por ele.
Não somos chamados a abandonar nossas profissões, casamentos ou bens, mas a segurá-los com as "mãos abertas", reconhecendo que pertencem a Deus e são temporários.
A verdadeira liberdade cristã reside em conseguir desfrutar das dádivas desta vida com responsabilidade.
  • Usar sem reter: A palavra grega traduzida para "desfrutar plenamente" (katachraomai) carrega o sentido de usar algo até o esgotamento ou ficar preso a isso. O equilíbrio está em interagir com a cultura, o trabalho e os bens, mas sem permitir que eles definam nossa identidade ou consumam nossa paz.
  • Discernimento da brevidade: Quando entendemos que a "cena" atual do mundo é como um cenário de teatro que logo será trocado, diminuímos a ansiedade tanto pelas perdas quanto pelas conquistas materiais.
  • Uso funcional vs. Dependência: As ferramentas culturais, profissionais e materiais devem servir aos nossos propósitos existenciais, e não o contrário. O esgotamento ocorre quando permitimos que o que possuímos passe a nos possuir.
  • O "Efeito Palco": Enxergar a realidade material como um cenário mutável retira o peso desproporcional tanto das perdas quanto dos ganhos. Isso cria um amortecedor psicológico contra as oscilações inevitáveis da vida.
Essa perspectiva nos convida a caminhar pelo mundo de forma leve, participando ativamente da sociedade sem nos tornarmos prisioneiros de suas estruturas temporárias.
O fundamento por trás dessa orientação está no versículo 31: "Pois este mundo, como está agora, não vai durar muito" (ou "a forma deste mundo está passando").
Para Paulo, a brevidade do tempo exige que o cristão viva com o coração centrado em Cristo, livre das inquietações excessivas que as coisas temporais costumam gerar.