Hoje acordei pensando nas amizades que fazemos pela vida "a fora" e lembrei de uma lenda árabe sobre dois amigos que discutiram durante uma viagem pelo deserto, se ofenderam e um deles agrediu o outro.
O amigo agredido escreveu na areia o que seu amigo fez. Continuaram a viagem, e logo depois, o homem agredido foi salvo de se afogar no oásis, pelo amigo que antes o havia agredido. Então, ele escreveu a ação do amigo numa rocha (pedra).
E, explicou que as ofensas devem ser escritas na areia para serem apagadas pela água e pelo vento, enquanto as boas ações devem ser gravadas na pedra (rocha) para durar para sempre, ensinando a importância do perdão e da gratidão.
E, pensei algo assim aconteceu com Jó e seus amigos. Também já aconteceu comigo. Interessante que, mais tarde, sem que eu tivesse contado a ninguém sobre a história dos dois amigos ou sobre Jó... a minha mãe postou no grupo de WhatsApp da família, o vídeo com a lenda árabe 😀😃😄😉
Então, a devocional (estudo bíblico) de hoje é baseado na na reação de Jó a ação de seus amigos. A Bíblia narra que no início, quando os amigos foram prestar APOIO a Jó sentarem-se com ele em silêncio em sua angústia. E, depois falharam em compreender sua dor (Jó 2:11-13).
Os amigos Elifaz, Bildade e Zofar foram visitar Jó após sua tragédia familiar, para consolá-lo. Era grande o sofrimento de Jó. Os amigos de Jó choraram em voz alta e se sentaram com Jó em silêncio por sete dias (Jó 2:11-13).
Depois começaram a discursar, julgando Jó, não reconhecendo que a sua dor era maior que suas explicações simplistas. Seus amigos o acusaram de ter pecado, defendendo o entendimento de que o sofrimento é uma punição.
A dor de Jó, descrita na Bíblia, foi um sofrimento extremo. Primeiro, Jó perdeu todos os seus bens (animais, servos) em desastres repentinos. Em seguida, todos os seus dez filhos morreram em um só dia, em um acidente.
Após essa tragédia de perder os filhos, os servos, animais e outros bens, Jó foi acometido por uma doença maligna, com feridas e dores intensas, que o deixaram em grande sofrimento físico, coçando-se com cacos de telha.
Jó não amaldiçoou a Deus, mas expressou sua profunda dor, desejando não ter nascido, e lamentou intensamente. Sua esposa o incentivou a amaldiçoar Deus e morrer, mas ele se recusou, mantendo sua integridade, embora questionasse o porquê de tanto sofrimento, buscou respostas, porém manteve sua fé.
Seus amigos vieram, mas em vez de consolar Jó, o culparam, aumentando seu sofrimento com conselhos errados, levando Jó a sentir-se abandonado por Deus. Um quarto amigo, Eliú, um jovem, também aparece mais tarde e repreende tanto Jó quanto seus amigos.
As vezes nos sentimos como Jó: ABANDONADOS. Sobreviventes de um sofrimento extremo, inexplicável, perdendo saúde, bens, família. Outras vezes, nos sentimos negligenciados do cuidado material, físico, afetivo, espiritual. Responsabilizamos os familiares, os amigos, a nós mesmos, a Deus... e nos ressentimos, nos afastamos com o coração e a mente adoecidos.
E, será que já nos sentimos como os AMIGOS DE JÓ?
Sabemos como nos comportar diante da dor alheia? Julgamos, maldizemos? Somos misericordiosos e empáticos? Nos colocamos no lugar do outro? Sabemos o que fazer e o que não fazer. Sabemos o que não falar e o que falar. Sabemos como apoiar nossos familiares e amigos; e, os amigos que ainda não conhecemos que chamamos de desconhecidos...
Quem eram os amigos de Jó?
1. Elifaz, o temanita, provavelmente de Temã, uma região associada à sabedoria.
2. Bildade, o suíta, possivelmente descendente de Suá, um neto de Abraão.
3. Zofar, o naamatita, de Naamate, possivelmente uma cidade em Edom.
4. Eliú, um amigo mais jovem, que aparece mais tarde e também fala com Jó.
O papel dos amigos de Jó na história
Os amigos de Jó, vieram a casa dele para chorar e lamentar com ele. Sentara-se em silêncio, sem falar nada por sete dias, reconhecendo a gravidade do sofrimento de Jó. Depois, começaram a insistir que Jó devia ter pecado para merecer tal sofrimento, baseados em uma visão de que Deus recompensa os justos e pune os ímpios (teologia da retribuição).
A atitude dos amigos de Jó ilustra o erro de tentar explicar o sofrimento sem compreender a complexidade da relação humana com Deus, levando Jó a questionar a Deus e a si mesmo.
Os amigos Elifaz, Bildade e Zofar, erraram ao acusar Jó de pecado e demonstraram não entender o mistério do sofrimento, aplicando uma "cartilha" insensível. Foram insensíveis, legalistas e acusadores, falhando em oferecer um apoio solidário e empático, mesmo com boas intenções iniciais.
Deus repreende os três amigos de Jó por suas palavras erradas, pois eles não falaram o que era reto sobre Deus, ao contrário de Jó, que buscou entender seu sofrimento e sua angústia, e Deus elogiou Jó por questionar a Deus, mas manter sua integridade, demonstrando fé, mesmo quando se sentiu abandonado.
Eu gosto de citar a frase "qualquer um pode superar uma dor, menos quem a sente" é uma citação de William Shakespeare, que significa que é fácil para os outros aconselharem ou dizerem como superar um sofrimento, mas só quem vivencia a dor conhece sua intensidade e tem a dificuldade de lidar com ela, pois o sentir é particular e intransferível, exigindo tempo e cuidado, não julgamento externo.
A reação de Jó aos seus amigos está registrada em Jó 42:10-12, que diz:
"Depois que Jó orou pelos seus amigos, o SENHOR lhe trouxe restauração e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes. Todos os seus irmãos e irmãs e todos os que o haviam conhecido celebraram com ele um banquete. Eles expressaram condolências e o consolaram por todas as tribulações que o SENHOR tinha trazido sobre ele, e cada um lhe deu uma peça de prata e um anel de ouro. Então, o SENHOR abençoou o final da vida de Jó mais do que o início. Este teve catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentos".
Após Jó clamar a Deus, Deus falou com ele do meio de um vendaval, restaurando a sua saúde, sua fortuna e sua família: ¹⁰ "E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o Senhor acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía". Jó 42:10
Na Bíblia, "cativeiro" tem um significado duplo: histórico, como o exílio de israelitas na Assíria e Babilônia, Simbolizava a subjugação de uma nação e a crença de que seu Deus havia sido derrotado, resultando em escravidão e separação da terra.
E, cativeiro espiritual, uma metáfora (figura de linguagem) para referir-se à escravidão do pecado ou de poderes malignos, da qual Jesus liberta os cristãos, como descrito em Efésios 4:8 - "Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens", citando o Salmo 68:18 para explicar a ascensão de Cristo.
Este versículo celebra a vitória de Jesus, que, ao subir ao céu "levou cativo o cativeiro", desfez o poder do mal e, como um rei triunfante, deu recursos (dons) aos Seus seguidores para que a Igreja pudesse crescer e cumprir Seu propósito
"O Senhor virou o cativeiro de Jó", sua profunda condição de sofrimento, aflição e opressão do inimigo, da qual Deus o libertou após Jó orar por seus amigos, restaurando-o material e espiritualmente, indicando uma reversão completa de sua desgraça para a bênção dobrada, simbolizando a vitória sobre as forças que o prendia ao cativeiro da escravidão material, espiritual, emocional.
A história de Jó nos ensina que devemos ORAR por nossos amigos, não apenas quando eles estão corretos e são justos, mas também quando se equivocam e são injustos. Jó é um exemplo de fé inabalável, paciência e resiliência diante de perdas e sofrimento inexplicáveis.
¹³ Também teve sete filhos e três filhas. ¹⁴ E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da segunda Quezia, e o nome da terceira Quéren-Hapuque. ¹⁵ E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos. ¹⁶ E depois disto viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos, e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração. ¹⁷ Então morreu Jó, velho e farto de dias. Jó 42:13-17
O texto afirma que "o SENHOR mudou a sorte de Jó quando este ORAVA POR SEUS AMIGOS". Após esse ato de intercessão, Deus restituiu a Jó o dobro de tudo o que ele possuíra anteriormente.
Alguém disse: "Falar sobre Deus para um amigo é bom, mas falar sobre um amigo para Deus é poderoso!"
Jó orou por Elifaz, Bildade e Zofar após Deus ter se irado com eles por não falarem a verdade sobre o Senhor a Jó. Mesmo tendo sido criticado por eles durante seu sofrimento, Jó agiu com humildade e perdão, demonstrando fé e domínio próprio, pois confiava em Deus, mesmo em meio a adversidade e dor extrema da qual nunca se recuperaria: a perda (morte) de seus filhos, em um acidente.
Uma frase marcante sobre o sofrimento de Jó, que resume sua fé e aceitação, é: "Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido" (Jó 42:2), mostrando sua confiança na soberania de Deus mesmo após a dor, além de sua declaração inicial: "Aceitaremos da mão de Deus apenas as coisas boas e nunca o mal?" (Jó 2:10).
A passagem é exemplo sobre o poder da oração — orar em favor de outros, mesmo quando enfrentamos nossas próprias batalhas e estes outros (familiares e amigos, mesmo os desconhecidos) são injustos ao externarem o que de nós pensam quando o mal nos alcança e nem tudo nos vai bem.
A Bíblia também adverte contra más companhias, pois elas podem corromper os bons costumes e nos afastar de Deus. 1 Coríntios 15:33 é um versículo bíblico que alerta: "Não vos enganeis: as más companhias corrompem os bons costumes" ou "as más conversações corrompem os bons costumes".
E, enfatiza a importância de escolher bem as amizades para não ser influenciado negativamente, pois as más companhias podem desviar do caminho certo e moldar o caráter.
A Bíblia apresenta vários outros exemplos de boas amizades, como Davi e Jônatas, demonstrando lealdade inabalável; Rute e Noemi, simbolizando amor e compromisso sacrificial; Paulo e Timóteo, uma relação de mentor e discípulo cheia de apoio e comunhão; Jesus e Lázaro, uma amizade íntima e pessoal; e Áquila e Priscila, parceiros na fé e no trabalho com Paulo, mostrando apoio mútuo e hospitalidade.
Rute e Noemi: Rute, uma nora moabita, escolheu ficar com sua sogra Noemi após a morte de seus maridos, demonstrando amor e dedicação incondicionais, lealdade inabalável e apoio mútuo em meio à perda e necessidade, adotando a terra e o Deus de Noemi, com Rute dizendo a Noemi: "O teu Deus é o meu Deus" (Rute 1:16-17).
Paulo e Timóteo: Uma amizade de mentoria e fé, onde Paulo incentivava, desafiava e caminhava com Timóteo em sua jornada cristã, como um pai espiritual (Atos 16:1).
Jesus e Lázaro: Jesus tinha uma amizade especial com Lázaro e suas irmãs, Maria e Marta, mostrando o amor divino e pessoal que Ele oferece aos seus seguidores, chamando-os de amigos (João 15:15).
Áquila e Priscila: Um casal que acolheu, trabalhou e apoiou o Apóstolo Paulo em suas viagens missionárias, sendo um exemplo de hospitalidade e parceria na fé (Atos 18).
Abraão e Ló: Embora parentes, eram parceiros que saíram juntos, e Abraão demonstrou cuidado e sabedoria ao negociar com Ló, protegendo-o (Gênesis 13).
Elias e Eliseu: Um exemplo de discipulado, lealdade e transmissão de legado, onde o mais velho prepara o mais novo para a missão (1 Reis 19:19-21; 2 Reis 2 e 6).
Amigos do Paralítico (Marcos 2:1-12): A fé e perseverança desses amigos que levaram seu companheiro a Jesus para ser curado mostram o poder de uma amizade que busca o milagre e a cura em Cristo.
Essas histórias mostram que as amizades na Bíblia são baseadas em lealdade, apoio mútuo, amor sacrificial e, muitas vezes, uma conexão espiritual profunda.
A Bíblia valoriza a amizade como um dom de Deus, destacando que um amigo fiel é como um tesouro, apoio nos momentos difíceis, um incentivo ao crescimento espiritual, com exemplos como Rute e Noemi e Elias e Eliseu, enfatizando que a verdadeira amizade nos aproxima de Deus e nos edifica.
Princípios da Amizade Bíblica
1) Fidelidade Incondicional - Bênção: Um amigo fiel é uma proteção poderosa, um presente de Deus que traz alegria e apoio, um tesouro encontrado como se fosse parte da família, como em Provérbios 17:17 - "O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade"
2) Edificação Mútua: Amigos se ajudam a levantar, se aconselham e se fortalecem, como em Provérbios 27:17: "Como o ferro afia o ferro, assim o homem afia o seu companheiro", significando que amigos verdadeiros e relacionamentos saudáveis nos tornam melhores, nos desafiam e nos fortalecem, assim como o atrito entre dois metais os deixa mais afiados e úteis.
É um ensinamento sobre crescimento mútuo, aprendizado e o valor de ter pessoas que nos encorajam e nos moldam positivamente.
Proximidade com Deus: A melhor amizade é aquela que nos leva para mais perto de Deus, com amigos que temem a Deus e seguem Seus mandamentos, mostrando que a verdadeira amizade e comunhão se encontram na obediência e no amor a Deus, em contraste com as más amizades.
Como o salmista expressou sua identificação com aqueles que temem a Deus e cumprem Seus mandamentos, afirmando: "Sou amigo de todos os que te temem e obedecem às tuas leis" (Salmo 119:63).
Sacrifício e Amor: Jesus é o maior exemplo, dando a vida pelos seus amigos, como descrito no Evangelho de João: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos" (João 15:13).
Ensinando sobre o amor sacrificial de Jesus, que se entregou por seus seguidores, estabelecendo um padrão supremo de amizade e doação. Este versículo destaca a entrega total como a maior expressão de amor, servindo de base para os mandamentos de Jesus sobre amar uns aos outros como Ele amou.
Companheirismo: Melhor é ter companhia do que estar sozinho, pois um amigo ajuda na queda como em Eclesiastes 4:9-10 - "Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só, pois, caindo, não haverá outro que o levante".
Essa passagem enfatiza que ter um parceiro aumenta a recompensa, oferece apoio mútuo em momentos de dificuldade e evita a solidão perigosa de quem não tem ninguém para estar junto em casa, no trabalho, no lazer... ou mesmo para ajudar a levantar-se (física, sócio-moral, espiritual, mental, emocionalmente, falando) sempre que preciso for.
A amizade na Bíblia é uma relação profunda, com propósitos divinos, que reflete o amor de Deus e promove o crescimento, a fidelidade e o apoio mútuo.
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