domingo, 22 de maio de 2016

O Poder Pertence a Deus

Introdução

O Salmo 62 é um cântico de confiança absoluta em meio à adversidade. Tradicionalmente atribuído a Davi, este salmo foi composto em um momento de grave crise política e pessoal — provavelmente durante a revolta de seu filho Absalão ou as perseguições de Saul.
Cercado por mentiras, traições e homens que confiavam na opressão e na riqueza (Sl 62:3-4, 10), Davi volta seus olhos para a única constante do universo.
      "Até quando maquinareis o mal contra um homem? Sereis mortos todos vós, sereis como uma parede encurvada e uma sebe prestes a cair. Eles somente consultam como o hão de derrubar da sua excelência; deleitam-se em mentiras; com a boca bendizem, mas nas suas entranhas maldizem. (Selá.)"
A expressão "Deus disse uma vez, duas vezes eu o ouvi" é um hebraísmo (uma figura de linguagem semítica) que enfatiza a certeza absoluta e a repetição de uma verdade inabalável: o poder soberano não pertence aos reis da terra, às armas ou às riquezas, mas pertence exclusivamente a Deus.
A referência completa (Salmos 62:11-12): "Uma vez Deus falou, e duas vezes eu ouvi: que o poder pertence a Deus e que contigo, Senhor, está o amor leal. É certo que retribuirás a cada um conforme o seu procedimento."
O sentido: Quando o salmista diz que Deus falou "uma vez" e ele ouviu "duas vezes", ele quer dizer que a Palavra de Deus é firme, forte e ecoa profundamente no coração, trazendo a certeza absoluta de que toda a força, o controle e o poder vêm de Deus e não dos homens.
1. A Repetição como Ênfase da Inerrância Divina
A expressão "Deus disse uma vez, duas vezes eu o ouvi" utiliza um paralelismo numérico semítico. Na literatura bíblica, essa repetição não indica que Deus precisou se repetir por falta de clareza, mas sim que a Sua palavra é plena, definitiva e digna de total confiança. O que Deus fala uma vez ecoa permanentemente na criação e na história.
Davi usa a palavra hebraica 'ōz para "poder", que significa força bruta, fortaleza, majestade e soberania inabalável.
  • O Contraste: No contexto do Antigo Oriente Médio, os reis se autoproclamavam deuses e fontes de poder. Davi quebra essa ilusão. Ele afirma que o poder não está fragmentado e nem pode ser usurpado.
  • A Ênfase: Ao dizer que ouviu "uma e duas vezes", o salmista destaca que essa verdade foi gravada profundamente em sua alma. Não é uma opinião passageira, mas um decreto divino estabelecido.
2. A Ilusão do Poder Humano vs. A Majestade Divina
No contexto do Salmo 62, Davi contrasta o poder de Deus com o "poder" dos homens, que mentem, extorquem e confiam em riquezas passageiras (vv. 9-10). O ponto central aqui é que toda força terrena é uma névoa. Enquanto reis e impérios sobem e descem, a soberania e o controle final do universo permanecem unicamente nas mãos do Criador.
No Novo Testamento, essa soberania exclusiva declarada em Salmos se materializa e ganha rosto na pessoa de Jesus Cristo.
  • O Poder sobre a Criação e a História: O mesmo poder ('ōz) atribuído a Deus no Antigo Testamento é direcionado a Jesus. Em Mateus 28:18, Jesus ressuscitado proclama: "Foi-me dada toda a autoridade [exousia/poder] no céu e na terra".
  • O Senhorio Absoluto: Enquanto o Salmo 62 destrona os homens poderosos que são "apenas um sopro" (Sl 62:9), o Novo Testamento coroa a Cristo em Filipenses 2:9-11, afirmando que diante do Seu nome todo joelho se dobrará. O poder que pertencia a Deus Pai é manifestado plenamente no Filho.
3. O Poder Alinhado ao Amor (A Onipotência Amorosa)
Embora o versículo 11 foque no poder, ele está intrinsecamente ligado ao versículo 12, que diz: "A ti também, Senhor, pertence a misericórdia". O poder de Deus não é despótico ou tirânico. É um poder governado pelo amor e pela justiça. Saber que o ser mais poderoso do universo também é o mais misericordioso traz profundo descanso para a alma.
Historicamente, o Império Romano representava o ápice do poder humano e militar na época do Novo Testamento. No entanto, o Evangelho redefine o conceito de força.
  • A Fraqueza de Deus é mais forte: Em 1 Coríntios 1:24-25, Paulo chama Cristo de "o poder de Deus e a sabedoria de Deus". O poder do Novo Testamento não se move por exércitos (como pensavam os judeus zelotes ou os romanos), mas pelo sacrifício e pela ressurreição.
  • A Vitória sobre a Morte: O maior paralelo histórico do poder absoluto de Deus ocorre no calvário e no túmulo vazio. O império humano e a liderança religiosa da época usaram todo o seu "poder" para matar Jesus, mas o poder supremo de Deus O ressuscitou (Efésios 1:19-20).
4. A Resposta Humana: Silêncio e Confiança
Se o poder pertence a Deus, a atitude humana correta é a descrita no início do Salmo: "A minha alma descansa somente em Deus" (v. 1). Reconhecer a onipotência divina nos liberta da ansiedade de tentar controlar o futuro ou nos vingar dos inimigos. A soberania de Deus gera submissão silenciosa e fé inabalável.
Tanto no contexto de Davi quanto no contexto da igreja primitiva sob perseguição romana, a tentação do povo de Deus sempre foi temer o poder visível dos homens ou confiar em recursos terrenos.
  • A Advertência: O Salmo 62:10 alerta: "Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentarem, não ponhais nelas o coração".
  • A Resposta Cristã: O Novo Testamento ecoa essa ordem em 1 Timóteo 6:17, exortando os ricos a não virem a "confiar na instabilidade das riquezas, mas em Deus". Quando entendemos que o poder pertence a Ele, somos libertos da ansiedade e do medo dos "poderosos" deste mundo.
Análise Teológica
Teologicamente, este versículo é uma das declarações mais puras sobre a onipotência de Deus no Antigo Testamento. A palavra hebraica para poder aqui é ‘ōz, que denota força bruta, majestade e segurança fortificada. O salmista estabelece que o poder não é algo que Deus possui temporariamente ou em copropriedade; é um atributo essencial de Sua própria natureza. Ao declarar que o poder pertence a Ele, o texto exclui qualquer possibilidade de dualismo (onde o bem e o mal teriam forças equivalentes). Deus reina sozinho.
Paralelo Histórico com o Novo Testamento
O Novo Testamento pega a verdade teológica de Salmos 62:11 e a personifica na figura de Jesus Cristo. Há um paralelo histórico e profético claro em três frentes.
A Fonte do Poder
  • Antigo Testamento (Salmos 62:11): Declara que o verdadeiro poder e a força pertencem exclusivamente a Deus.
  • Novo Testamento (Cumprimento - Mateus 28:18): Jesus ressuscitado afirma sua soberania absoluta ao declarar: "Todo o poder me foi dado no céu e na terra". 
A Vitória sobre os Impérios
  • Antigo Testamento (Salmos 62:11): Aponta que o poder humano, por mais orgulhoso que pareça, é passageiro e não se compara à soberania divina.
  • Novo Testamento (Cumprimento - Colossenses 2:15): Cristo despoja as potestades e domínios, expondo a fragilidade dos poderes do Império Romano e das autoridades religiosas da época através de sua ressurreição e triunfo na cruz. 
A Doxologia Final
  • Antigo Testamento (Salmos 62:11): Direciona todo o louvor, reverência e temor para a unicidade do poder de Deus.
  • Novo Testamento (Cumprimento - Apocalipse 5:12): Ecoa essa mesma adoração celestial ao redor do trono, declarando: "Digno é o Cordeiro [...] de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor".
Historicamente, enquanto Davi olhava para o poder de Deus para se proteger de inimigos físicos, a igreja do Novo Testamento (frequentemente perseguida pelo Império Romano) olhava para o Cristo ressurreto como a validação viva de que o poder político e militar da terra é passageiro, mas o Reino de Deus é eterno.
Conclusão
O eco de Salmos 62:11 atravessa os séculos e se consolida de forma gloriosa no encerramento das Escrituras. No livro de Apocalipse, após a queda de todos os impérios humanos corrompidos, a igreja triunfante canta no Novo Testamento:
      "A salvação, e a glória, e o poder pertencem ao nosso Deus" (Apocalipse 19:1).
Salmos 62:11 é um convite para recalibrar nossa visão de controle. Em um mundo obcecado por influência, status e segurança financeira, a Palavra de Deus nos lembra de que essas coisas são frágeis e insuficientes.
O verdadeiro poder não reside em estruturas humanas, mas na Palavra dAquele que falou uma vez e cujos decretos permanecem para sempre. Descansar nessa verdade é o único caminho para a verdadeira paz.
Ouvir "uma e duas vezes" que o poder pertence a Deus é o remédio contra o medo e o combustível para a fé. Reis caem, governos mudam, moedas desvalorizam e impérios viram poeira na história, mas o trono do Deus de Davi e do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo permanece inabalável para sempre.

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