1. "O dilema da prosperidade dos ímpios"
A justiça de Deus
Salmo de Asafe
1. Na verdade, Deus é bom para o povo de Israel,
ele é bom para aqueles que têm um coração puro.
2-3. Porém, quando vi que tudo ia bem
para os orgulhosos e os maus,
quase perdi a confiança em Deus
porque fiquei com inveja deles.
4. Os maus não sofrem;
eles são fortes e cheios de saúde.
5. Eles não sofrem como os outros sofrem,
nem têm as aflições que os outros têm.
6. Por isso, usam o orgulho como se fosse um colar
e a violência, como uma capa.
7. O coração deles está cheio de maldade,
e a mente deles só vive fazendo planos perversos.
8. Eles gostam de caçoar e só falam de coisas más.
São orgulhosos e fazem planos para explorar os outros.
9. Falam mal de Deus, que está no céu,
e com orgulho dão ordens às pessoas aqui na terra.
10. Assim o povo de Deus vai atrás deles
e crê no que eles dizem.
11. Eles afirmam: “Deus não vai saber disso;
o Altíssimo não descobrirá nada!”
12. Os maus são assim: eles têm muito
e ficam cada vez mais ricos.
13. Parece que não adiantou nada eu me conservar
puro e ter as mãos limpas de pecado.
14. Pois tu, ó Deus, me tens feito sofrer o dia inteiro,
e todas as manhãs me castigas.
15. Se eu tivesse falado como os maus,
teria traído o teu povo.
16. Então eu me esforcei para entender essas coisas,
mas isso era difícil demais para mim.
17. Porém, quando fui ao teu Templo, entendi
o que acontecerá no fim com os maus.
18. Tu os pões em lugares onde eles escorregam
e fazes com que caiam mortos.
19. Eles são destruídos num momento
e têm um fim horrível.
20. Quando te levantas, Senhor, tu não lembras
dos maus, pois eles são como um sonho
que a gente esquece quando acorda de manhã.
21. O meu coração estava cheio de amargura,
e eu fiquei revoltado.
22. Eu não podia compreender, ó Deus;
era como um animal, sem entendimento.
23. No entanto, estou sempre contigo,
e tu me seguras pela mão.
24. Tu me guias com os teus conselhos
e no fim me receberás com honras.
25. No céu, eu só tenho a ti. E, se tenho a ti,
que mais poderia querer na terra?
26. Ainda que a minha mente e o meu corpo
enfraqueçam, Deus é a minha força,
ele é tudo o que sempre preciso.
27. Os que se afastam de ti certamente morrerão,
e tu destruirás os que são infiéis a ti.
28. Mas, quanto a mim, como é bom estar
perto de Deus! Faço do Senhor Deus o meu refúgio
e anuncio tudo o que ele tem feito.
Salmos 73: NTLH
Nova Tradução na Linguagem de Hoje
O Salmo "O dilema da prosperidade dos ímpios", de Asafe e o poema Ao Desconcerto do Mundo, de Luís Vaz de Camões, utilizam a observação da realidade para confrontar os próprios limites éticos.
2. IRONIA - "Ao Desconcerto do Mundo"
O poema "Ao Desconcerto do Mundo", de Luís Vaz de Camões, é uma crítica à injustiça social e à aparente falta de sentido da vida. Os versos iniciais denunciam o sofrimento dos justos. Por fim, o eu lírico lamenta ser o único punido ao tentar se adaptar a essa lógica invertida.
O eu lírico relata a sua frustração ao observar que as pessoas boas sofrem, enquanto as más prosperam; e, que ao tentar se adaptar a essa lógica, ele também é punido, concluindo que o mundo é desregulado para todos, exceto para ele próprio.
"Ao Desconcerto do Mundo" é uma esparsa de Camões que lamenta a inversão de valores, onde os justos sofrem e os perversos prosperam.
A obra foca na desordem social e no castigo pessoal do poeta, que ironiza sua desventura, e expressa sua frustração com a injustiça social e a aparente falta de lógica da vida.
Camões reflete sobre o chamado "desconcerto do mundo" — a ideia pessimista de que a sociedade recompensa os maus e pune os bons.
O autor relata que as pessoas honestas sempre sofrem "graves tormentos", enquanto os desonestos "nadavam em mar de contentamentos"
Ele confessa que, ao tentar adaptar-se a essa ordem invertida e agir como os maus para obter sucesso, acabou punido, concluindo que as leis éticas e justas só parecem valer para ele.
"Ao Desconcerto do Mundo",
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.
O texto aborda a dor e a desilusão através das seguintes características:
- Injustiça Social: A percepção de que o mundo é injusto e os valores morais estão invertidos.
- Temática de Injustiça: O texto reflete a desilusão do Renascimento. O poeta percebe que a virtude não é recompensada e a maldade é, muitas vezes, o caminho para o sucesso material.
- Estrutura Formal: Diferente de seus sonetos clássicos, o poema é uma esparsa (estrofe única) escrita em "medida velha" (redondilhas maiores, com 7 sílabas poéticas).
- Antítese e Paradoxo: Usa contrastes (bons vs. maus) para destacar o absurdo da condição humana. A ironia final ("só para mim / Anda o mundo concertado") mostra que as regras do universo parecem funcionar de forma invertida apenas para o poeta.
- Desilusão Pessoal: A angústia do próprio Camões, um homem culto e leal que enfrentou inúmeros infortúnios e desterros, sentindo-se um "estranho" em sua própria época.
- Inversão de Valores: O poeta usa uma antítese clara entre o destino dos justos, que passam por "graves tormentos", e o dos injustos, que nadam em "mar de contentamentos".
- Revolta contra o Absurdo: O eu lírico sente-se impotente perante um sistema de justiça que parece não seguir a lógica da razão.
- Ironia Final: O verso "Assim que, só pera mim / anda o Mundo concertado" é carregado de ironia. Ele percebe que o universo é "justo" apenas quando se vira contra ele — quando ele tenta se comportar mal para obter as mesmas vantagens que os outros, é imediatamente castigado, enquanto os verdadeiros maus escapam ilesos.
3. O Testemunho de Asafe
O salmista Asafe testifica: "meus pés QUASE se desviaram", "POUCO FALTOU para que escorregassem os meus passos", "QUANDO VIA a prosperidade dos ímpios":
"² Quanto a mim, os meus pés QUASE que se desviaram; POUCO FALTOU para que escorregassem os meus passos. ³ Pois eu tinha inveja dos néscios, QUANDO VIA a prosperidade dos ímpios".
Asafe relata que quando "colocou os seus olhos" na vida do ímpio (transgressor consciente), se frustrou a ponto de sentir inveja do insensato (néscio/tolo) que, diferente dele, carece de entendimento espiritual e de discernimento moral:
"Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso" (Salmo 73:16),
Na Bíblia, o néscio é a pessoa que age sem pensar nas consequências eternas ou que nega a existência de Deus em suas atitudes práticas (como citado em Salmos 14:1: "Disse o néscio no seu coração: Não há Deus").
O ímpio, refere-se àquele que vive de forma contrária à lei e à vontade de Deus, caracterizando-se pela falta de piedade, maldade ou injustiça. É o transgressor consciente, muitas vezes associado à prática do mal, à soberba e à exploração do próximo, rejeitando a autoridade moral e divina.
Embora incomodado com os seus pensamentos ao comparar a sua vida com a vida do ímpio Asafe reconheceu que deveria focar os seus pensamentos, valores e prioridades espirituais em Deus em vez de se prender a "concupiscência dos olhos", e ceder a tentação do desejo excessivo de possuir ou cobiçar o que se vê, como riquezas, bens materiais e aparências do mundo.
O conceito de "concupiscência dos olhos", aparece em 1 João 2:16, que diz: " ...porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente".
No versículo 21 Asafe diz:
"Quando o meu coração estava amargurado e no íntimo eu sentia inveja, agi como insensato e ignorante; minha atitude para contigo era a de um animal irracional."
Esse trecho reflete o momento em que o salmista reconhece que suas dúvidas e revolta ao ver a prosperidade dos maus o deixaram cego e sem entendimento espiritual. Ele expressa profundo arrependimento por ter julgado a situação apenas com a visão humana.
Ambos os textos exploram a crise existencial gerada pela aparente injustiça do mundo e o sentimento de desordem.
4. Diferenças na Resolução e Conclusão
- a) Foco da Angústia:
Asafe sofre por invejar a aparente paz e prosperidade dos ímpios enquanto mantém uma postura íntegra..
- Perspectiva Teológica de Asafe: A crise do salmista é superada ao entrar no "santuário de Deus". Ele percebe que a prosperidade dos ímpios é temporária e que o seu verdadeiro tesouro é a comunhão com Deus, o que o leva ao arrependimento profundo por ter tido uma mentalidade materialista.
Camões por outro lado, foca na inversão de valores, onde os "bons" sofrem tormentos e os "maus" nadam em contentamentos.
- Perspectiva Humanista de Camões: O poeta português conclui o texto com um tom de ironia e fatalismo. Ao tentar adaptar-se ao mundo e agir mal, ele é punido, chegando à conclusão amarga de que, enquanto para todos os outros a vida flui, o mundo só é "concertado" para puni-lo.
- b) O Sentimento de Desconcerto
Ambos partilham o mesmo ponto de partida: a perplexidade diante da forma como a vida parece premiar a maldade. No entanto, a forma como lidam com o "desconcerto" diverge:
Asafe
Transcende a realidade através da fé, encontrando sentido na justiça escatológica (o fim dos ímpios).
Camões
Expressa um profundo ceticismo e desilusão, típico do Renascimento, onde a razão humana esbarra no absurdo e na irracionalidade das regras sociais e do destino.
5. Crise de Fé: O Dilema do Salmista (v. 1 a 14)
Asafe inicia o Salmo com uma afirmação de fé:
"Verdadeiramente bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração".
Porém, logo em seguida, ele confessa ter quase escorregado na fé ao notar que os arrogantes e perversos parecem viver sem aflições, com saúde, riqueza e sem consequências para a sua soberba. Ele chega a duvidar se valeu a pena manter o coração puro diante de tantas provações diárias.
O levita e salmista Asafe, relata sua profunda crise de fé ao observar pessoas más prosperando enquanto ele enfrentava dificuldades. A passagem descreve o momento de arrependimento e clareza de Asafe ao reconhecer que seus julgamentos precipitados foram falhos e impulsionados por sentimentos destrutivos.
- "Quando o meu coração estava amargurado e no íntimo eu sentia inveja..."
O salmista admite que permitiu que o descontentamento com sua própria vida se transformasse em amargura e inveja ao se comparar com os ímpios (pessoas que zombavam de Deus).
Asafe percebeu que a raiz do problema estava no seu próprio interior, onde cultivou um sentimento tóxico ao invejar a felicidade passageira dos maus.
- "...agi como insensato e ignorante"
A "insensatez" aqui refere-se à falta de sabedoria espiritual e ao raciocínio precipitado. A "ignorância" aponta para a visão limitada dos acontecimentos. Asafe estava julgando a vida apenas sob a perspectiva humana e terrena, sem enxergar o panorama espiritual e o propósito divino.
- "...minha atitude para contigo era a de um animal irracional."
Esta é uma forte expressão de auto humilhação. Ao comparar-se a um animal irracional, Asafe reconhece que se deixou levar puramente por instintos básicos — como a frustração, a raiva e a inveja. Ele agiu sem controle emocional, sem discernimento e sem a consciência racional que Deus proporciona.
Apesar desse momento de falha humana e afastamento emocional de Deus, o salmista reconhece que o Senhor continuou ao seu lado e o sustentou.
O texto é uma reflexão sobre a necessidade de buscar refúgio na presença de Deus, onde a perspectiva humana é transformada e a alma encontra verdadeira paz.
6. A Revelação no Santuário (v. 15 a 20)
O ponto de virada do salmo acontece quando Asafe entra na "Casa de Deus". Ele passa a enxergar a vida não mais pela ótica terrena, mas com a perspectiva divina. Ele compreende que o sucesso dos ímpios é passageiro, pois Deus os coloca em "lugares escorregadios" e os destrói repentinamente.
- A Conclusão e Entrega (v. 21 a 28)
Asafe, um levita e músico do templo, sentiu inveja ao ver pessoas orgulhosas e desonestas viverem sem sofrimento, com saúde e acumulando riquezas. Ele questionou a validade de sua própria integridade, pois, mesmo servindo a Deus, enfrentava provações diárias.
- A Crise: Essa observação gerou amargura e quase o fez abandonar o caminho da fé ("...os meus pés quase se desviaram...").
- A Solução: A visão de Asafe só foi restaurada quando ele foi ao santuário de Deus. Nesse ambiente de adoração e busca espiritual, ele percebeu que a aparente felicidade dos maus é passageira, pois o destino final deles é a ruína.
Ao se dar conta de sua própria pequenez e amargura, Asafe reconhece que o Senhor sempre esteve ao seu lado, segurando sua mão. Ele conclui que a verdadeira riqueza é estar perto de Deus e fazer dEle o seu refúgio seguro. E, encerra o salmo com um dos versículos mais belos de toda a Bíblia sobre confiança e adoração:

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