domingo, 15 de fevereiro de 2026

Galardão da Herança


O capítulo 3 de Colossenses destaca a mentalidade cristã e a transformação na prática da vida cristã que está em deixar o "velho homem" e revestir-se do "novo homem"; e o "Galardão da Herança", assuntos estes que permitem múltiplas abordagens, que certamente não se concluem em um único estudo. 

1. A Mentalidade Cristã:

Colossenses 3:1-4 exorta os cristãos a terem uma mentalidade cristã, focada em assuntos espirituais, referentes a Deus, a Jesus Cristo, a vida eterna e não em assuntos terrenas, porque, tendo ressuscitado com Cristo, sua vida agora está oculta n'Ele e eles são mortos para o mundo terreno, aguardando a futura manifestação gloriosa com Cristo, o que implica em buscar viver em santidade.

          ¹ Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. ² Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; ³ Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. ⁴ Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória. Cl. 3:1-4.

A "transformação" da mente (Rm. 12:2), significa não se conformar com padrões negativos (mundanos); não se deixar moldar por eles (ação externa), não se adaptar aos antigos hábitos (ação interna), é permitir uma "mudança de padrão" de dentro para fora através da renovação da mente, por valores positivos provenientes da Palavra de Deus.

Um sistema contínuo de reprogramação de crenças e atitudes. Um processo ativo que substitui os antigos pensamentos mundanos, negativos ou limitantes por novos e bons pensamentos, alinhando-os a vontade de Deus. 

2. O que Abandonar:

Paulo lista várias ações carnais associados à vida mundana e a práticas pecaminosas, que os colossenses em sua nova vida com Cristo devem abandonar, "MORTIFICAR", privar de força ou vitalidade, enfraquecer, fazer morrer.

          ⁵ "Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a fornicação, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; ⁶ Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência; ⁷ Nas quais, também, em outro tempo andastes, quando vivíeis nelas. ⁸ Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca. ⁹ Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, ¹⁰ E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; ¹¹ Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos", Cl. 3:5-11.

Significado dos Termos:
  • Fornicação: Sexo ilícito, imoralidade sexual;
  • Impureza: Qualquer tipo de contaminação moral ou física;
  • Afeição desordenada: Desejos e paixões descontroladas por coisas terrenas;
  • Vil concupiscência: Desejos e apetites excessivos e degradantes;
  • Avareza (que é idolatria): A busca e o apego excessivo e mesquinho por dinheiro e bens materiais, colocando-os no lugar de Deus (idolatria), caracterizado pelo desejo desenfreado de acumular riquezas e pelo medo intenso de perdê-las. O conhecido Pão-duro, Unha-de-fome ou Muquirana, pessoa avarenta que renuncia o conforto e se nega a generosidade, priorizando a posse em detrimento as necessidades básicas e aos relacionamentos.
  • "Filhos da desobediência" - pessoas de conduta pecaminosa que podem se tornar "filhos da luz", pela fé em Cristo. A ira de Deus contra eles é consequência da desobediência e injustiça. (Cl. 3:6-8 e Ef. 5:6-8.).
  • Ira, Cólera, Maldade: Reações de raiva, ódio e intenções más;
  • Maledicência e Palavras Torpes: Falar mal dos outros, calúnias e linguagem obscena ou indecente;
  • Palavras Vãs: Engano e falsidade, enganos que afastam as pessoas da verdade, como descrito em (Ef. 5:6);
  • Obras das Trevas: Atos pecaminosos e infrutíferos, que contrastam com a vida de luz em Cristo;
  • Vida Segundo os Desejos Mundanos: Seguir os padrões deste mundo, a concupiscência e a soberba, vivendo em rebelião contra Deus, (Ef. 2:2 e 1 Jo. 2:16).
Paulo instrui os cristãos a abandonar a velha vida e adotar a nova natureza em Cristo, renovada e cheia de amor, misericórdia e perdão. Uma exortação aos cristãos a "mortificar" os impulsos pecaminosos e a buscar, ativamente, uma vida transformada, refletindo a imagem de Deus em seu viver.

3. Novo Estilo de Vida:

          ¹² "Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; ¹³ Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. ¹⁴ E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição", Cl. 3:12-14.

Vestir é o ato de pôr roupa, cobrir-se. Enquanto "revestir" é um termo mais amplo que significa envolver algo de novo, outra vez, recobrir com uma camada externa de proteção (segurança) ou de decoração (adorno). Em sentido figurado, "revestir" é usado em sentido mais profundo, como assumir a aparência externa de autoridade ou de sabedoria.

Aos colossenses é escrito praticamente um "Manual de Revestimento" para o caráter cristão. Paulo usa a metáfora de "revestir-se", sugerindo que essas virtudes, essas qualidades que moldam o caráter do indivíduo à imagem de Cristo, são para uso externo, como as nove qualidades do fruto do Espírito referido em Gálatas, uma de suas primeiras epístolas, escrita por volta de 48 a 57 d.C.:

          "Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gl. 5:22).

Paulo instrui a igreja (corpo de Cristo) para revestir "de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade"; para proteção e adorno da primeira impressão "um dos outros", perdoando uns aos outros como Cristo os perdoou.

Esse revestimento na autoestima e na socialização do corpo de Cristo traria a boa aparência a Igreja e os valorizaria "como eleitos de Deus, santos e amados"; e, como um toque final, como um "cinto" que segura tudo no lugar, Paulo diz: "E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição" — o amor é aquilo que estabelece a união (vínculo) trazendo a maturidade (perfeição) ao corpo de Cristo.

4. Relacionamentos:

Paulo instrui as esposas e os maridos; os filhos e os pais; e os servos sobre a vida cristã, orientando-os quanto aos deveres das relações domésticas e familiares...

          ¹⁸ "Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor. ¹⁹ Vós, maridos, amai a vossas esposas, e não vos irriteis contra elas. ²⁰ Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. ²¹ Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo. ²² Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus", Cl. 3:18-22.

Para as mulheres e aos maridos, Paulo destaca a responsabilidade mútua de amor e respeito, com base no modelo de Cristo e a Igreja. E, aos pais incentiva a criação com amor e instrução, e não com frustração ou medo, para que os filhos aprendam com disposição a obedecer de forma espontânea, por honra e respeito.

Paulo instrui aos servos a obedecerem seus senhores (terrenos) com sinceridade e temor a Deus, não apenas para agradar aos homens, mas com motivação espiritual: o temor a Deus.

Sobre relacionamentos cristãos, instrução semelhante escrita na Epístola aos Colossenses, durante a 1ª prisão de Paulo em Roma, por volta de 60-62 d.C, havia sido escrita anteriormente na 1ª carta aos Coríntios - por volta de 55 d.C. - durante a 3ª viagem missionária de Paulo em Éfeso, para resolver problemas práticos e doutrinários na igreja de Corinto, como divisões e imoralidade.

a) I Coríntios (cap.7), respondendo a perguntas da comunidade de Corinto, Paulo aborda questões sobre casamento e celibato; a importância do compromisso matrimonial; a vida de casados e solteiros; a relação entre cônjuges cristãos e não cristãos.

Depois Paulo escreveu assunto semelhante aos Efésios, por volta de 60-62 d.C, durante sua 1ª prisão em Roma.

b) Efésios (cap. 5 e 6), contém instruções detalhadas sobre os papéis de maridos e esposas (Ef. 5:22-33), enfatizando o amor sacrificial de Cristo pela igreja como modelo para os maridos, e o respeito e submissão da esposa. Também orienta filhos a obedecerem a seus pais e pais a criarem seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor, ou seja, conselho, advertência leve ou benévola (Ef. 6:1-4).

As Epístolas de Efésios e Colossenses foram escritas na mesma época (durante a 1ª prisão de Paulo em Roma, por volta de 60-62 d.C.) e enviadas pelo mesmo mensageiro, Tíquico, um cristão da província da Ásia, companheiro leal e auxiliar do apóstolo Paulo. Tiquico acompanhou Paulo em parte de sua 3ª viagem missionária, da Macedônia a Jerusalém, e possivelmente participou da coleta para os cristãos necessitados na Judeia (At. 20:4).

Descrito como "amado irmão, fiel ministro e conservo no Senhor" (Cl. 4:7), Tiquico serviu como mensageiro de confiança, entregando as cartas de Efésios e Colossenses, levando informações e encorajando os cristãos. 

Estudos acadêmicos sugerem que a Epístola aos Efésios é literariamente dependente da Epístola aos Colossenses e foi redigida posteriormente, baseada nela. A razão pela qual Efésios aparece antes de Colossenses na maioria das Bíblias é devido ao seu comprimento ligeiramente maior, e não pela ordem cronológica de escrita.

As duas cartas abordam temas semelhantes, como a Supremacia de Cristo, relacionamentos cristãos, a natureza da Igreja. Muitos estudiosos as consideram "gêmeas" devido à sua forte interligação temática e cronológica.

Posteriormente, o mesmo tema das relações familiares cristãs foi escrita na 1ª carta a Timóteo, por volta de 64-65 d.C., quando Paulo estava viajando e supervisionando as igrejas após sua libertação inicial, instruindo Timóteo que ficou em Éfeso:

c) I Timóteo (cap. 5), inclui orientações práticas sobre o cuidado com os membros da família, especialmente viúvas e parentes próximos, afirmando que quem não cuida dos seus, especialmente dos de sua própria casa, nega a fé (1 Tm. 5:8).
5. Despedida - Saudação Final

Paulo começa a se despedir da Igreja na cidade de Colossos (v. 15-17) e retoma a instrução aos colossenses falando sobre relacionamentos familiares cristãos (v. 18 a 22). E, então conclui a carta (v. 23-25). 

1ª Parte da Despedida: ¹⁵ "E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. ¹⁶ A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração. ¹⁷ E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai". Cl. 3:15-17.

Instrui os cristãos a viverem em paz, gratidão e com a Palavra de Cristo habitando neles abundantemente em toda sabedoria, ensinando e admoestando uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, e fazendo tudo em nome de Jesus, com gratidão a Deus Pai, promovendo a unidade e a transformação através da fé.

2ª Parte - Saudação Final: ²³ "E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, ²⁴ Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis. ²⁵ Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas". Cl. 3:23-25.

Adverte que quem causa dano ou injustiça sofrerá as consequências, pois Deus a ninguém favorece e não faz acepção de pessoas, julgando a todos igualmente.

É um chamado à integridade, excelência e serviço a Deus em todas as áreas da vida, com a certeza da recompensa e do justo julgamento divino.

Exorta os cristãos a fazerem tudo com sinceridade e excelência, servindo a Cristo em suas tarefas diárias, como se Ele estivessem servindo, diretamente, não aos homens, pois, mesmo que não haja reconhecimento humano do seu trabalho, virá do Senhor Deus que recompensa a cada um com o galardão da herança.

Entendendo os termos:

"Galardão da Herança": refere-se à recompensa divina, mencionada em Colossenses 3:24. O termo "galardão da herança" denota uma distinção, prêmio, recompensa, retribuição por obediência, ações e obras, pela vida cristã e resultado da fidelidade, do trabalho realizado como ao Senhor. Recompensa derivado do grego misthós (salário).

Não confundir galardão com salvação. Trata-se de conceitos diferentes, distintos. SALVAÇÃO É PELA GRAÇA, ou seja, a salvação não é um prêmio por desempenho, mas um presente gratuito de Deus. Não é algo que se conquista, é um presente imerecido de Deus a todo aquele que crê. Portanto, a salvação é alcançada através da fé em Jesus Cristo, e não por obras (Ef. 2:8-9).

A salvação te coloca no Reino. E, o galardão é o reconhecimento e a recompensa por sua jornada e serviço dentro desse Reino. Embora as obras não salvem, elas são evidências (fruto/prova/consequência) essenciais da fé genuína e o resultado natural de uma vida transformada, e são para honra e glória do nome de Deus.

Distinção Importante: A salvação é pela fé em Jesus Cristo, mas o galardão é pelas obras (serviço), sem que as obras garantam a salvação, mas sim determinem o nível de recompensa, pela obediência colocada em ação (serviço). A obediência cristã nasce do amor e gratidão pela salvação já recebida.

Galardão (perspectiva cristã): se refere à recompensa que Deus concede aos fiéis por sua obediência, pelo caráter da pessoa, suas obras, fidelidade na vida cristã, uso de dons. Significa prêmio ou pagamento por um trabalho, uma retribuição justa pelo serviço prestado.

Um salário de grande valor emocional e espiritual como dádivas, bençãos. Uma retribuição recebida do Senhor, tanto aqui nesta vida quanto na vida futura (eterna), sendo este último o maior galardão: vida eterna com Deus.

Galardão nos céus (recompensa futura), versículos chave:

Isaías 40:10: "Eis que o SENHOR Deus virá com poder, e o seu braço dominará; eis que o seu galardão está com ele, e diante dele, a sua recompensa."

Mateus 5:12: "Regozijem-se e alegrem-se, porque grande é a vossa recompensa nos céus; pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês."

Colossenses 3:24: "Sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo."

Apocalipse 22:12: "Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras."

O termo "galardão" também se aplica aos filhos, que são vistos como bençãos, como "Galardão" e "herança do Senhor", uma recompensa que o Senhor dá, conforme o Salmo 127:3 - "Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre, o seu galardão".

Filhos como Galardão, como "herança do Senhor, significa que eles são um presente valioso de Deus para os pais.

A relação entre Herança e Galardão:

Herança como Galardão (no sentido cristão): É o direito de todos os salvos pela graça de Deus (Ef. 2:8-9). Refere-se ao direito que os cristãos têm de receber a vida eterna e as bênçãos divinas por serem filhos de Deus, algo recebido pela fé, não por mérito. Um bem ou legado recebido, que no contexto espiritual, refere-se às bênçãos eternas e à vida com Deus.

Galardão como Herança: É a recompensa que Deus dá aos cristãos com base em como eles usaram seu tempo, dons e recursos para servi-Lo e amar uns aos outros, uma resposta (resultado) à trajetória de vida de cada um.

O "galardão da herança" une esses conceitos, indicando que, além da herança da vida eterna, há recompensas celestiais (galardões) que Deus concede aos que vivem fielmente. Os filhos são um exemplo terreno desse tipo de recompensa valiosa.

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